terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Clock

O meu olhar encontrou o teu, esvaimo-nos em sorrisos tortos, conversas de café. Cheguei a corar uma ou outra vez! Tinha dificuldade em te encarar, porque os meus olhos encontravam a luz dos teus. Fitava-te cegamente, senti penetrares o meu sorriso. Perdia-me. Falei sobre um livro presente, um rasgo da minha imaginação daquilo que quis ser algum dia, mas que ficou perdido e já não interessa. Ou melhor, interessa só pela contemplação do belo, pelo poder que a arte evoca no meu corpo. O certo é que ainda me deslumbro, por vezes, emociono-me.
Fixei a retina no relógio de cuco suspenso atrás de mim. Ansioso por ver-te segui o fino ponteiro, quase irreconhecível, que percorre menos de metade de um quarto do círculo imaginário, que não viola o imaculado mostrador branco de um retábulo que se confunde com a clara parede _ o relógio de cuco. Guardo-o comigo, a ele e à projecção da sua sobra sob uma ténue luz, que apazigua o espaço. Torna-o quente, enquanto a tua presença me distrai e faz vibrar. A sombra ganhou contornos reconhecíveis, agora. Voltei a encontrar-te depois de rodopiar sobre mim. Mas já não sei se continuas ali ou se partilhas apenas o mesmo espaço. Um espaço que nos era comum, onde possivelmente nos teríamos cruzado e onde te encontrei.

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