domingo, 13 de maio de 2007

Maio


O que me lembra Maio é o cheiro intenso de uma árvore.
Era uma árvore que ficava por cima de uma esquina, que não era uma esquina qualquer. Era uma esquina redonda de paredes brancas, caiadas e com rodapé de pó-de-sapatinho azul. Uma fresca mistura como na mais tradicional e antiga azulejaria portuguesa. Lembro-me do seu aroma adocicado cada vez que passava naquela esquina. O aroma da árvore que se desprendia, que se fazia anunciar à sua proximidade e que se prolongava e se continua a fazer sentir, não na minha memória olfactiva, mas no meu coração. A árvore frondosa sombreava o seu espaço e acariciava o véu pintado de azul, desbotado pelos raios de luz. Mas esta árvore não era uma árvore qualquer, era a árvore do paraíso. As suas pequenas e frágeis flores brancas de estames amarelos são os Paraísos e qualquer semelhança com a realidade será pura coincidência, porque me recordam o Paraíso, seja isso o que for.
Era no Mês de Maria que íamos pedir à Senhora da árvore um raminho de flores, os Paraísos. Em casa, lembro-me que a minha mãe arranjava os Paraísos e juntava-lhes cravos brancos, atava os pés das flores com fio e enrolava papel prateado em seu redor, como que a protegê-los, rematando com um laço em fita com as pontas bem grandes e pendentes. Ao cair da noite íamos em procissão, nós as crianças acompanhadas pelas vozes do povo, oferecê-los a Nossa Senhora. Devolvíamos as flores ao Céu, onde pertencem os Paraísos.