segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Quando olhamos para os outros não nos vemos a nós próprios, mas quando sofremos como eles, a nossa imagem aparece reflectida nos seus olhos.
Passo longas horas do meu dia entre o sofrimento e a alegria da vida, entre desaires de pessoas. Habituados a queixas de dor, um sorriso e a atenção devolve-lhes um pouco do sentido da vida, outrora perdido.
Hoje tive a outra perspectiva e agora sento-me em frente a um espelho a olhar para a minha imagem, procurando no fundo dos meus olhos encontrar algo que ficou.

sábado, 18 de agosto de 2007


Os longos dias esvaiem-se lentamente. Cada dia que passa traz-me a certeza de que o Verão, em breve, chegará ao fim. Águas envoltas na areia, ondulam memórias e arrastam o passado. Recordo cheiros, faces de pessoas, os meus amigos... Perco-me a olhar albúns cheios de fotografias, algumas ainda (muitas diria eu), dispersas em caixas. Penso que deveria perder tempo a organizar as provas desse tempo passado. Alguns já não estão entre nós. Os outros vão alegrando os meus dias à distância de um telefonema ou de uma breve recordação dos dias em que eu sonhava ser feliz. Tenho saudades dos tempos em que os tinha perto de mim, porque me importam, fizeram parte da minha construção... No fundo são pedaços de mim. Mas eu continuo aqui a ver o mar ir e voltar.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Volver


Voltei!
Regresso ao meu universo, sem querer. A vida é um círculo e, queiramos ou não, voltamos sempre às nossas origens.
Trago a ilusão de quem desperta de um sonho, ainda adormecido.
A serenidade invade-me agora mas, tantas e tantas coisas há quem continuam a inquietar-me.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

The Flower


Preciso de flores na minha vida
De côr,
Da alegria
E entusiasmo.
Tenho uma dádiva perdida
De dor.
Quero a magia
De sonhar acordado.

domingo, 13 de maio de 2007

Maio


O que me lembra Maio é o cheiro intenso de uma árvore.
Era uma árvore que ficava por cima de uma esquina, que não era uma esquina qualquer. Era uma esquina redonda de paredes brancas, caiadas e com rodapé de pó-de-sapatinho azul. Uma fresca mistura como na mais tradicional e antiga azulejaria portuguesa. Lembro-me do seu aroma adocicado cada vez que passava naquela esquina. O aroma da árvore que se desprendia, que se fazia anunciar à sua proximidade e que se prolongava e se continua a fazer sentir, não na minha memória olfactiva, mas no meu coração. A árvore frondosa sombreava o seu espaço e acariciava o véu pintado de azul, desbotado pelos raios de luz. Mas esta árvore não era uma árvore qualquer, era a árvore do paraíso. As suas pequenas e frágeis flores brancas de estames amarelos são os Paraísos e qualquer semelhança com a realidade será pura coincidência, porque me recordam o Paraíso, seja isso o que for.
Era no Mês de Maria que íamos pedir à Senhora da árvore um raminho de flores, os Paraísos. Em casa, lembro-me que a minha mãe arranjava os Paraísos e juntava-lhes cravos brancos, atava os pés das flores com fio e enrolava papel prateado em seu redor, como que a protegê-los, rematando com um laço em fita com as pontas bem grandes e pendentes. Ao cair da noite íamos em procissão, nós as crianças acompanhadas pelas vozes do povo, oferecê-los a Nossa Senhora. Devolvíamos as flores ao Céu, onde pertencem os Paraísos.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Minha


O Sol desce lentamente e um ar gelado ainda nos martiriza os cabelos, despenteia-os, enrijece a nossa pele. Os campos florescem, perdem-se de vista numa fracção de segundos. O velocímetro dispara. Vacas pastam. A paisagem está quieta, imóvel à nossa passagem. Pássaros passeiam em bandos, serpenteiam o horizonte. Parecem acompanhar o barco que se desloca para Sul, flutuando sobre a cúpula que coroa a cidade. O cheiro das primeiras flores invade a brisa com uma intensidade atordoante, que fere as narinas e percorre as tuas veias. Relembro os meus dias ali, entre o casario e a imensa planície que se estende a seus pés. Quando os dias cresciam, de repente, como a vontade de te percorrer com todos os meus sentidos, aligeiravamos a roupa e sorriamos nas esquinas e nas praças, vagueavamos pelas ruas e jardins e repusavamos os olhos no teu entardecer. Sempre foste um segredo bem guardado e mesmo agora, há distância de alguns anos, mesmo depois de te ter vivido, de viver o teu âmago, continuas misteriosa. Ergues-te para o imenso azul, onde refletes a tua alma de luz. Por vezes clara, outras vezes na penumbra dos becos continuas a olhar o horizonte, perdida de esperança.

Continuo a gostar de desvendar mistérios...

domingo, 29 de abril de 2007

Musa

Vi passear as Tágides no final de uma destas tardes. Levavam os seios a descoberto, os cabelos escorridos e sem pudor algum vagueavam por entre a multidão. As longas pernas franziam em pregas nos joelhos, escamas douradas e prateadas que reflectiam a luz, quase cegavam o povo que passava indiferente. Suspiravam entre si melodias e assobiavam o rebentar das ondas do mar no leito do rio. Os seus gestos doces, coreografados, agarraram a minha alma. Consegui vê-las! Estupefacto assisti ao ensaio da eternidade. Porque nem todos as podem ver...

domingo, 8 de abril de 2007

Fulgor


Há luz sem lume aceso
Mas sem amar o calor
À flor de um fogo preso
À luz do meu claro amor

Há madressilvas aos pés
E águas lavam o rosto
Dedos que tens em respeito
Oh, meu amante deposto

Não foram poemas nem prosas
Que colheste do meu colo
Foram cardos, foram rosas
Arrancadas do meu solo

Porque tu ainda me queres
O amor que ainda fazemos
Dá-me um sinal se puderes
Seremos amantes supremos

Será sempre a subir
Ao cimo de ti
Só para te sentir
Será do alto de mim
Que um corpo um só
Exala o seu fim.

sábado, 24 de março de 2007

Segue-me


Porque é que te perdeste no caminho, se eu sigo em frente?
Ainda te espero na encruzilhada. Na esperança de ver-te surgir, aguardo o amanhecer. Choro a cantar as minhas mágoas, a ouvir soluçar a água nos beirais. No ar ainda pesa a humidade.
Porque é que o tempo não pára? Sofreria menos por não te ter, mas prolongaria a tua lembrança.
Os teus olhos perseguem outro caminho, que não o meu abismo.
A tua língua desenvolta em mil idiomas, que não percebo porque não aprendi.
O teu corpo ondula pelos campos, que não me pertencem.
A tua mente dispersa-se além do meu sentimento.
Vem comigo.
Sei que ainda te posso amar!

quinta-feira, 22 de março de 2007

Eu sou assim


Às vezes você me pergunta por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada, nem vivo sorrindo ao seu lado
Você pensa em mim toda hora, me come me cospe me deixa
Talvez você não entenda mas hoje eu vou lhe mostrar
Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida, eu sou o medo de amar
Eu sou o medo do fraco, a força da imaginação
O blefe do jogador, eu sou, eu fui, eu vou
Eu sou o seu sacrifício, a placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro e as juras de maldição
Eu sou a vela que acende, eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo, eu sou o tudo e o nada
Por que você me pergunta? Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra do fogo da água e do ar
Você me tem todo o dia, mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você mas você não está em mim
Das telhas eu sou o telhado, a pesca do pescador
A letra \"A\" tem meu nome, dos sonhos eu sou o amor
Eu sou a dona de casa nos \"peg-pags\"do mundo
Eu sou a mão do carrasco, sou raso, largo e profundo
Eu sou a mosca da sopa, o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego e a cegueira da visão
Eu sou o amargo da língua, a mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio, o início, o fim e omeio
O início, o fim e o meio

quarta-feira, 21 de março de 2007

A Primavera Revelada


Não a primavera interior, interdita, a da casa, nascendo dentro, entrando para as ruas, memórias breves, marcas eternas subitamente extintas, dissolvendo a parte fechada dos parques, absorvendo os narcisos, em infernos exíguos, agora antigos, não a primavera definida pelos aromas fixos, de interpretação impossível, a não ser na mutação dos corpos, no conhecimento das ínfimas estrias, no futuro então explícito, nas ruas de colunas ondulando ao ar frio, não essa primavera tardia, no futuro retida, mas a revelação revista, a sucessão das ondas, como quando a primeira primavera sobre o corpo corria.

domingo, 18 de março de 2007

Vou Procurar


Procuro-te por entre ruas, esquinas,
Prédios e fachadas, e não te encontro!
No meio da multidão, vejo gentes,
Raças, etnias, religiões, tudo menos tu.

Sinto-me desorientada no espaço, no tempo,
No pensamento e nas palavras.
Aquilo que me completava desapareceu!
Já não sou nada, já não sou ninguém.

O céu está nublado,
Tanto, que os arranha-céus desapareceram.
E se estás lá bem no alto?
Sem eu te poder ver, ajudar, e completar?

Junta-te a mim, não fujas.
Procura-me no teu profundo sentimento de perda,
E de certeza que me achas,
Alma minha!

terça-feira, 13 de março de 2007

Mudam-se os tempos


Observo-o a mudar. Não é o mesmo homem que entrou nesta casa, seis, sete meses atrás. Algo, da mesma natureza poderosa das metamorfoses, vem operando no seu íntimo. É talvez, como nas crisálidas, o secreto alvoroço das enzimas dissolvendo órgãos. Podem argumentar que todos estamos em constante mutação. Sim, também eu não sou o mesmo de ontem. A única coisa que em mim não muda é o meu passado: a memória do meu passado humano. O passado costuma ser estável, está sempre lá, belo ou terível, e lá ficará para sempre.

quinta-feira, 8 de março de 2007

segunda-feira, 5 de março de 2007

Esta voz que me atravessa


Esta voz que me atravessa
Sem que eu queira, sem que eu peça
Não mora dentro de mim
Vive na sombra a meu lado
Dando ao meu fado outro fado
Que me faz cantar assim

Trago cravado no peito
Um resto de amor desfeito
Que quando eu canto me dói
Que me deixa a voz em ferida
Pelo pranto de outra vida
Que eu nem sei que vida foi

E quando canto há quem diga
Que esta voz de rapariga
É mais antiga do que eu
Estava aqui à minha espera
Não morreu com a Severa
Quando a Severa morreu!

sexta-feira, 2 de março de 2007

E então fiquei...


Parada à esquina do tempo
Esperei por ti
E não voltaste!
Sentada a um canto da vida
Esperei por ti
E não chegaste!

quinta-feira, 1 de março de 2007

Sonho


Vejo que a chuva ainda cai lá fora, na noite crua. Surpreendeu-me neste serão ainda frio, ao arrepiar-me os diminutos cabelos da nuca. O sentimento da tua ausência confunde-se com o vento, como quem te viu ir para algum sítio sem saber bem para onde e te continua a procurar sem sabe porquê. O vento é frio. Aconchego-me na pele coçada, desbotada da poltrona e puxo a manta raiada.
Poderias estar comigo, mas preferes as luzes ténue dos candeeiros da rua, que cintilam. Não os consigo ver da janela, mas alcanço uma aureula que aclara o negro do céu, sombreiam a cal das paredes. Sei que te perdes lá fora, algures continuas a sorrir, como sempre. Moves-te bem, em sintonia com o espaço e caminhas firme, com a segurança de quem conquista o mundo.
Saberia dizer que a solidão de uma sala cheia ainda me incomoda, mas aprendi que prefiro ter-te no meu pensamento, embora já embalado num sonho.
Perco-me num vazio e frio labirinto. A manga da camisa foi agarrada pelos ramos secos dos arbustos que me cobrem a cabeça e a vista de ti. Despedaça-se em grossos farrapos. Corro sem direcção porque os meus passos são curtos demais para chegar a ti. Não te alcanço! Sinto o teu odor no ar e persigo os teus passos. Ouço os pequenos duendes da floresta sussurrarem à minha passagem, repentina e ofegante.
_ Persegue-os o amor!_ dizem.
Apercebo-me que os seus olhos se entristecem quando me olham. Eles sabem que corro em vão.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Atrás de ti...


Senão todos algum
de nós reproduz diversos os mesmos lugares.
E aquela que entra no verso para o percorrer
atrás da tua sombra serei eu.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Canção de embalar


Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Bruma...


Vinham rosas na bruma florescida
rodear no teu nome a sua ausência.
E ai se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.

Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.

E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
embruma a brisa em que se aviva a rosa